No documentário 'A Gente', o cineasta Aly Muritiba volta ao seu antigo emprego para mostrar em que condições o poder público mantém funcionários para cuidar de uma unidade prisional

Filme retrata cotidiano do trabalho de agentes carcerários

Por: olhar
Publicado quinta-feira, 21 setembro 2017

Cores cinzentas, ambientes claustrofóbicos, falta de estrutura, de pessoal e de segurança compõem o cenário do documentário A Gente, de Aly Muritiba, que estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Salvador e Porto Alegre. O longa-metragem fecha a trilogia que o diretor fez sobre o cotidiano das prisões brasileiras.

Em A Fábrica (2011) e Pátio (2013), Aly voltou seu olhar para as famílias dos presos e para a vida dos próprios detentos e agora ele retorna ao seu antigo emprego para registrar o dia a dia daqueles que já foram seus colegas de trabalho: a equipe Alfa, um grupo de agentes carcerários formado por 28 trabalhadores, homens e mulheres de origens e formações distintas, que fazem a guarda e custódia de aproximadamente mil presos de uma penitenciária paranaense.

A Gente é um documentário de observação em que o diretor acompanha silenciosamente as reuniões de chefia, as relações entre os trabalhadores e a tensão dos corredores da penitenciária a partir do ponto de vista dos funcionários. Apesar de não vermos nem escutarmos o diretor, sua presença é o tempo todo evidente porque talvez ninguém alheio a este universo conseguiria tanta intimidade naquele ambiente. Em alguns momentos, o espectador talvez até se questione sobre o quanto daquelas conversas e situações tiveram de ser “encenadas” para representar a realidade.

Choca bastante não apenas a precariedade das condições de trabalho dos agentes, mas sobretudo a carência de recursos que eles dispõem para a ressocialização dos detentos. Falta água, algemas, cadeados e travas. Mas mais que isso, não há sequer um médico na penitenciária. Em certo momento, um detento reclama que na cela há pessoas com dor de dente e de garganta há 15 dias sem que ninguém tenha prestado qualquer tipo de atendimento ou prescrição. “Só que aqui é uma cadeia com 940 presos e só tem uma enfermeira, no máximo; às vezes, duas. Médico, não tem”, o carcereiro retruca para o preso.

Em sua maior parte, o filme acompanha de perto Jefferson Walkiu a partir do momento em que ele assume o cargo de chefe da inspetoria do grupo Alfa e começa, esperançoso, este trabalho que, mais tarde, descobrirá ser impossível. Se a narrativa iniciacom uma ponta de esperança de que as coisas podem melhorar na penitenciária, logo torna-se evidente que as mãos de Walkiu estão “algemadas” pelas instâncias superiores – mais precisamente, pelo governo estadual paranaense, liderado desde 2011 pelo tucano Carlos Alberto Richa. É no meio de situações completamente fora de controle que a possibilidade de greve se instala na equipe e que Walkiu acaba tendo de tomar uma difícil decisão.

No filme todo, só não fica muito clara qual era a intenção de Aly Muritiba ao decidir acompanhar a “vida civil” de Jefferson Walkiu, que é um fervoroso pastor nas horas vagas. Por várias vezes, o diretor mostra os cultos e as orientações que o pastor dá a um jovem que será batizado por ele. O que, talvez, fique implícito nesta abordagem é que o agente lida com tanta falta de esperança no sistema que precisa apegar-se à religião como forma de abrandar a dureza da vida.

O longa-metragem também está disponível na plataforma Videocamp para exibições públicas e gratuitas.

por Xandra Stefanel

 

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