Francisco Russo fala sobre suas impressões sobre 'A Gente'

A Gente Microcosmo brasileiro – ADOROCINEMA

Por: olhar
Publicado sábado, 16 setembro 2017

De certa forma, rodar o documentário A Gente não foi propriamente desafiador para Aly Muritiba, já que, antes de se estabelecer como cineasta, trabalhou por sete anos como agente penitenciário – daí vem o trocadilho oral do título, ao mesmo tempo personalista e abordando o objeto de estudo. Se por um lado tal detalhe trouxe ao diretor um profundo conhecimento sobre o tema e uma importante cumplicidade perante os colegas de trabalho, por outro também transmite ao filme um certo tecnicismo inerente à profissão, especialmente através de códigos e termos não explicados ao público leigo – o que, naturalmente, afasta o espectador. É nesta corda bamba, refletida também nas questões abordadas ao longo da narrativa, que o filme se equilibra.

A Gente - Foto

Ao contrário de boa parte dos documentários brasileiros que retratam o universo carcerário, aqui o foco principal não está no preso. Ele até aparece aqui e ali, sempre como coadjuvante, de forma mais a retratar a relação do mesmo com os agentes e a ameaça constante que representa, mesmo que reine uma (aparente) normalidade. Muritiba busca justamente a calmaria que precede a tensão, trabalhando com habilidade alertas de companheiros e uma certa quebra de expectativa, sobre o que pode vir. Tal opção consegue fugir do clima tendencioso/partidário graças à personificação do longa-metragem no agente Jefferson Walkiu. É através de sua liderança e idealismo que o espectador consegue se aproximar deste círculo fechado onde, no fim das contas, o dedo é apontado para o Estado. Ou melhor, em sua burocracia e na falta de condições ideais para que o trabalho proposto seja realizado.

Tal situação é apresentada de várias formas, desde o primeiro minuto do documentário. Da existência de três chaves de algema para 900 presos à presença de apenas um enfermeiro para todos os encarcerados, passando ainda pelo atendente que, com o computador (quebrado) diante de si, precisa anotar os nomes dos visitantes em uma mera folha de papel. Nada propriamente novo para quem está ao menos um pouco familiarizado com os problemas brasileiros, mas que serve justamente para estreitar laços com o espectador a partir de uma câmera voyeur, que trafega por dentro da penitenciária ora acompanhando conversas, ora observando o cotidiano. Sem coitadismo, é bom frisar.

A Gente - Foto

Se por um lado o retrato deste microcosmo tão particular é que o A Gente oferece de melhor, por outro o filme sofre de problemas técnicos sérios. A captação de som falha praticamente impossibilita a compreensão de determinadas conversas, algo que poderia ser minimizado com a pontual inclusão de legendas. Além disto, a narrativa apresenta um exagero em relação à vida pessoal do próprio agente Jefferson, devido à insistência em retratar seu lado religioso. Por mais que sirva de contraponto emocional para o personagem – a paixão apenas é vista na igreja, a cadeia é local de frieza -, há uma glorificação excessiva que, no fim das contas, cansa.

No fim das contas, A Gente funciona muito melhor como reflexo das dificuldades em trabalhar no ambiente público do que propriamente nas tensões e contradições decorrentes da vida como agente penitenciário. Por mais que até seja interessante, deixa uma ponta de decepção por ser inferior ao outro longa dirigido por Aly Muritiba, Para Minha Amada Morta, e também a vários de seus curtas, como Tarântula e Pátio.

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